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Professores e mestres, alunos e discípulos

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Biblicamente e sob o ponto de vista educacional, o que realmente significa fazer discípulos conforme Cristo orientou a fazermos? Jesus e os Seus discípulos: modelo bíblico de interação para mais do que adquirir conhecimento.

A ordem de Jesus foi clara: “façam discípulos…” (Mateus 28:19). Na sequência a esta ordem, vem outros dois imperativos que apontam o objetivo de fazer discípulos: batizá-los em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensiná-los a obedecer aos mandamentos do Senhor. A ordem é clara, e o objetivo também.

Porém, esse processo específico de ensino e aprendizagem, voltado para conduzir pessoas ao batismo e à obediência aos mandamentos de Deus, não é feito a partir da combinação de professores e alunos, e sim, de mestres e discípulos. Embora popularmente aceitamos os sinônimos nestes dois pares de palavras (professor e mestre; aluno e discípulo), elas não são.

Entender a diferença entre aluno e discípulo facilitará a compreensão da diferença entre professor e mestre, e do porquê de a ordem ser para fazer discípulos e não alunos. Convencionalmente, um aluno está matriculado em uma instituição de ensino com o objetivo de adquirir conhecimento a respeito de um campo específico. Para isso, tem um ou vários professores que se encarregam de facilitar o caminho para ele possa ser iluminado por essa nova luz de conhecimento. Afinal, a palavra aluno vem do latim, que pode significar aquele que não tem luz.

O discípulo e o aluno

A palavra discípulo também vem do latim, e segundo o site dicio.com.br, pode ter como sinônimo as palavras aluno, acadêmico, aprendiz, educando etc.  Porém, de acordo com esse mesmo site, o discípulo apresenta as seguintes definições: “quem recebe disciplina ou instrução”, ou “quem segue as ideias ou imita os exemplos de outro”. O discípulo não se limita a aprender o conhecimento, contudo vai além disso, criando um elo com o seu tutor. Ou seja, todo discípulo é aluno, mas nem todo aluno é discípulo.

Fazer discípulo é mais que a transmissão de conhecimento. Fazer discípulo é transpor as barreiras formais das instituições de ensino e imergir em uma jornada de influência e transformação pelo exemplo. Fazer discípulo é ir além do conhecimento acadêmico, e ensinar um estilo de vida. Por isso, para fazer discípulo é necessário ser mais que um professor: é necessário ser mestre.

Estratégia implica intencionalidade

Para ensinar, é necessário fazer com dedicação (Romanos 12:7). E nesse caso, tanto o professor ou o mestre que dominam esta arte utilizam estratégias para alcançar seus objetivos. Porém, enquanto o professor procura a melhor estratégia para alcançar a maioria dos alunos otimizando o seu trabalho, o mestre também individualiza a estratégia para cada discípulo, potencializando os resultados. A intencionalidade no processo de ensino aprendizagem é marcada pela incansável procura da melhor estratégia. A busca da forma certa de ensinar distingue os bons dos excelentes, quer sejam professores ou mestres.

Discipulado vai além da intencionalidade

Apesar da estratégia ser fundamental para professores e mestres, a coerência é vital para aqueles que assumem o papel do discipulado. Uma vez que o discípulo se distingue do aluno pelo fato de seguir o exemplo do mestre, isso não acontecerá se a coerência não estiver presente. Não há discipulado sem que o discípulo veja na vida do mestre coerência com o seu ensino. Não é à toa que o sábio Salomão disse: “ensina a criança no caminho em que deve andar…” (Provérbios 22:6). Ensinar no caminho não é apontar a rota e dizer: “vá”. É mostrar o caminho e dizer: “siga-me”.

Mas não é somente Salomão que falou sobre a coerência no aspecto do ensino. Moisés, também sob a inspiração divina, disse: “E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te (Deuteronômio 6:6-7). As palavras do patriarca reforçam a necessidade da coerência associada à estratégia no contexto do ensino. A recomendação é clara: sejam intencionais no ensino, tenham estratégia, façam isso em todo o tempo, quer seja andando pelo caminho ou assentado em tua casa, mas façam. Porém, sejam coerentes. Antes de ensinar, coloquem primeiramente as palavras no teu coração.

O combo do discipulado

Essa combinação de intencionalidade e coerência no ensino traz o sucesso para os grandes líderes discipuladores. Podemos ver claramente essa dinâmica recomendada por Moisés e reforçada por Salomão, no relato de Josafá, descrito no segundo livro das Crônicas dos reis de Judá. Especificamente, no capítulo 17, vemos a ascensão de Josafá ao reino, substituindo seu pai, Asa. Os versos 3, 4, 5 e 6 mostram o rei Josafá como que incorporando para si os ensinos das Escrituras Sagradas. Como rei, ele precisava ser um discipulador. Então, como primeiro ato, ele busca, com ousadia de coração, andar nos caminhos do Senhor. Uma vez que as palavras já estavam no seu coração, ele intencionalmente recorre a uma estratégia para que o reino também possa acompanhá-lo nessa devoção. Os versos 7, 8 e 9 mostram a estratégia criada por Josafá, designando um grupo de pessoas que ensinassem o povo. Josafá usou a combinação perfeita: coerência e intencionalidade.

E qual foi o resultado das ações de Josafá? No capítulo 20 do segundo livro das Crônicas, vemos o relato do momento de crise que veio sobre o povo de Judá. Chegou a hora de pôr à prova o sistema de discipulado adotado pelo rei. Quando os filhos de Amon se uniram aos filhos de Moabe e vieram fazer guerra contra Judá, a reação do povo discipulado foi surpreendente. Em lugar de fugirem ou buscarem ajuda de outros deuses ou nações vizinhas eles se ajuntaram no templo, na casa do Senhor, e afirmaram que não sabiam o que fazer, mas que os seus olhos estavam confiantes no Senhor (verso 12).

Com a modernidade aparecem outras estratégias de ensino. Plataformas digitais de aprendizado têm sido uma fonte de recursos. Hoje vivemos a realidade da internet, com inúmeras opções de busca pelo conhecimento e a inteligência artificial com seus algoritmos permitindo o aprendizado contínuo. Todas essas opções são estratégias que promovem o ensino. Mas, apesar de todos esses recursos contribuírem para o ensino, eles não promovem o discipulado.

Conclusão

Discipular envolve relacionamento, intencionalidade e coerência. Jesus, o Mestre dos mestres, o mesmo que deu a ordem para fazer discípulos, coerentemente dedicou a Sua vida demonstrando como fazer isso. Tudo o que o Mestre fazia era com intencionalidade e coerência. Quantas vezes observamos nas Escrituras Jesus considerando meticulosamente cada uma das suas ações para servir de exemplo aos seus discípulos. Jesus mostra intencionalidade quando diz à sua mãe “ainda não é chegada a minha hora”; ou quando diz a Zaqueu: “preciso ficar na sua casa”; quando propositalmente espera alguns dias para visitar Maria e Marta, cujo irmão havia falecido; quando envia os discípulos à frente para buscar o jumentinho que seria sua montaria para entrar em Jerusalém; quando pede a Felipe para alimentar a multidão.

Os discípulos entenderam isso. O apóstolo Paulo chegou a dizer “sede meus imitadores, assim como eu sou de Cristo Jesus” (1 Coríntios 11:1). O livro de Atos registra o apóstolo Paulo, junto com Barnabé, seguindo a ordem de Cristo, fazendo discípulos (Atos 14:21). Eles seguiam o método de Cristo: misturavam-se com as pessoas, relacionavam-se com elas, ganhavam a sua confiança e naturalmente as pessoas passavam a segui-los. O método de Cristo é uma combinação de intencionalidade e coerência. Não se ganha a confiança das pessoas se existe incoerência no viver.

As ações de Jesus não aconteciam como fruto do acaso. Além disso, não havia incoerência no seu falar e agir. As suas curas no sábado mostravam sua coerência em ser o Senhor do Sábado; o seu perdão ao criminoso arrependido que estava crucificado e o perdão oferecido aos que zombavam dEle naquele momento na cruz estão em harmonia com o seu ensinamento no sermão da montanha. Em todo o tempo, Jesus foi coerente com aquilo que ensinava, por isso, multidões O seguiam. Esta é a diferença entre o professor e o mestre. O professor encerra seu compromisso ao final da aula. O mestre dá continuidade ao seu ensino convidando e atraindo discípulos a segui-lo.


Alexandre Nunes é pesquisador em Ciências de Dados da Educação e coordenador do PAAEB, projeto da Rede de Educação Adventista.

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